Cidadania Ambiental

Ecologia Interna: o "verde" de dentro para fora

Ecologia interna

No caminho da economia da vida, a cura para as feridas do indivíduo, da humanidade e de Gaia

Simone Silva Jardim

Acabamos de assistir ao encerramento de um milênio, paradoxalmente marcado pela experiência, vivida por milhares de gerações de seres humanos em evolução na superfície do Terra, da mais densa escuridão e, também, dos reflexos de uma grande luz-consciência que agora está não no final, mas no meio do “túnel”.
Em 12 de abril de 1961 e 20 de julho de 1969, provavelmente ocorreram as mais fantásticas e transformadoras oportunidades daquele ciclo evolutivo. Na primeira data, o russo Yuri Gagarin era o primeiro homem a viajar pelo espaço.Oito anos depois, o americano Neil Armstrong pisava na Lua. Mais tarde, de volta a árida paisagem lunar, o comandante da nave espacial Apollo 8, Frank Bornan, deu um depoimento que traçou com precisão o sentido interno daquele feito para toda a humanidade:
“A Terra, que é nossa casa, aparece pequena e linda – o oásis da vida na desolada solidão do espaço. Todos precisamos tentar um pouco

mais arduamente proteger e preservar esse planeta. O espaço é internacional. Ele faz com que a frase ‘um mundo só’ tenha um novo sentido, pois daquela distância não podemos ver as fronteiras nacionais, as barreiras entre as nações. Nesse mundo novo existem boas oportunidades abertas ao homem e ao seu gênio para que todos cooperem como seres humanos”.

Feridas por todos os lados - Hoje, as imagens transmitidas por satélites revelam mais desse nosso pequeno, lindo, azul e frágil planeta Terra– Gaia, na língua dos gregos.
As fotos revelam que a maior parte das grandes descobertas do gênio humano e o estilo “civilizado” de vida têm sido a razão das incontáveis e profundas feridas que se apresentam nos vários “corpos” ou camadas do planeta, do subsolo à estratosfera.
Os pulmões de Gaia – florestas - seu sangue – os oceânos e a água doce que corre pelos rios e lençóis freáticos -; sua pele - o solo –; seus ossos – rochas e picos - e seus “outros” hóspedes – espécies da fauna e flora – tudo e todos estão sob constante e grave ameaça.
A camada de ozônio, que protege os seres vivos da radiação ultravioleta do Sol, está com um rombo equivalente a três vezes a extensão territorial do Brasil. Estudos da ONU mostram que estamos gerando um volume de dejetos 40% maior que a capacidade do planeta de “metabolizá-los” naturalmente. As experiências de manipulação de genes hoje em curso, o uso de armas biológicas e a pena de morte dão prova de que a espiritualidade básica está ausente em alguns seres humanos.
E o que denuncia esse sombrio cenário senão uma profunda crise ética, claros sinais de nossa ainda anêmica consciência planetária de solidariedade de humanos entre si e em relação a outras formas de vida?
A escritora Dorothy Maclean faz um comovente relato de seus contatos telepáticos com o reino vegetal no livro Comunicação com Anjos e Devas (Editora Pensamento). Diz o deva de um cipreste à ela:
“Grandes florestas precisam florescer, e o homem precisa cuidar para que isso aconteça, se quiser continuar vivendo neste planeta. Nós somos, em verdade, a epiderme da Terra, e uma epiderme não só cobre e protege, mas através dela passam as forças da vida”.

Aprendizado essencial - A Terra é nosso corpo físico e espiritual em escala maior; os problemas de ordem ambiental, econômica, política, religiosa que enfrentamos são a exteriorização de nossa crise interna. Entre as leis que regem nosso sistema, a da compensação é inexorável. As feridas de Gaia terão de ser curadas e para isso uma significativa parcela da humanidade precisa optar por funcionar além dos níveis mais superficiais, elementares e menos refinados de suas possibilidades neste tempo-espaço. E de forma ininterrupta. Trata-se do movimento denominado ecologia interna, complementar aos esforços empreendidos externamente em prol da proteção do planeta. A ecologia interna baseia-se num aprendizado essencial: a economia da vida.
Cultivar uma conduta de medida e seletividade é uma chave. A decisão de adotar um estilo de vida mais simples por fora, porém muito mais rico interiormente. Não se trata de adotar uma conduta dogmática, avarenta, mas sim de enraizar a intenção de viver experiências equilibradoras, de modo a dar ao presente ciclo de aprendizado um maior propósito, de tornar a vida realmente satisfatória, menos estressante e repetitiva, com mais tempo livre para expressarmos nossas verdadeiras vocações.
Consumir de modo mais maduro é uma contribuição que está ao alcance de cada um de nós. Baseia-se no autêntico aprendizado de distinguir necessidades reais de caprichos e comportamentos compulsivos. Já dissemos neste artigo que a atual civilização esta gerando um volume de dejetos 40% maior que a capacidade do planeta de “metabolizá-los” naturalmente.
O homem, desde os tempos mais remotos, produz lixo, mas antes do surgimento das primeiras indústrias na Europa, em meados do século XVlll, os resíduos sólidos descartados eram gerados em pequena quantidade, constituídos essencialmente de sobras de alimentos.
A produção em larga escala e o consumo desenfreado de bens e serviços inauguraram a era dos descartáveis ou do puro desperdício de recursos naturais, trabalho humano, dinheiro.
Latas de refrigerante, guardanapos de papel, fraldas, copinhos de plástico, jornais, comida e até eletrodomésticos. Hoje, tudo vai para o cesto de lixo com uma impressionante insensibilidade e rapidez.
Para se ter uma idéia, varia enormemente o tempo de degradação na natureza de todas essas coisas. Vidro, 10 mil anos; alumínio, 500 anos; plástico, 450 anos; aço, 100 anos; chiclete, 5 anos; papel, 4 semanas.
Outro dado que merece reflexão: isoladamente e num único dia, a capital do estado mais rico do país, São Paulo, gera detritos suficientes para encher a carroceria de aproximadamente 1.700 caminhões. Pudera, estima-se que cada habitante produz 1 kg de lixo/dia, sendo 60% de restos de comida, justamente num país com quase 20 milhões de miseráveis!

Ancorar um nova consciência - Em razão da grandeza desses e de tantos outros problemas de ordem socioambiental, que ultrapassam fronteiras artificialmente impostas, atualmente, mais que no passado, não será a própria ascese o foco principal da atenção daquele que busca realizar-se espiritualmente. O SERVIÇO que o autêntico místico pode prestar é ancorando e irradiando energias cósmicas na potência e no grau requeridos para a cura incondicional em favor de tudo e de todos que o rodeiam.
Seres assim ainda são raros na Terra - embora haja muitos em processo de formação e outros tantos em vias de optar por esse caminho. Sua vida externa e pessoal passa a ser ordenada a partir da essência interna. É um processo de amadurecimento individual que beneficia toda a humanidade de superfície porque cada ser humano passa a expressar a sintonia com a perfeição existente em seu âmago.
Nas últimas três décadas, o movimento ambientalista vem expressando, gradualmente, alguns arquétipos desse novo ciclo de experiências, acelerando nossa transição para um era de fraternidade entre todas as formas de vida, assegurando, através do paradigma da sustentabilidade, o incremento de um modelo de desenvolvimento econômico e sócio-ambiental capaz de satisfazer às reais necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.
Destaque-se que o chamado consumo sustentável, amparado principalmente em três condutas - reduzir, reutilizar e reciclar (3R’s) - tem esbarrado num sério obstáculo, que o impede de avançar no presente tempo-espaço.
Entre nós, programas de coleta seletiva* não têm sido implantados em número suficiente para fazer frente à demanda, nem crescido de forma significativa a maioria das iniciativas já existentes, porque o consumo sustentável exige bem mais do que a conduta externa e mecânica de depositar em cestos coloridos os inúmros materiais descartáveis consumidos em nossos lares.
Talvez falte acrescentar a essa equação mais 2 R’s: responsabilidade e revolução ética. Assim, teríamos a nos guiar a conduta dos 5 R’s. Interessante notar que esse número mágico nos remete à estrela de cinco pontas, à nave espacial Saturno 5 (a que levou Armstrong à Lua..). Na Numerologia, é o número da humanidade, da corrente vital que circula no corpo. Na Cabala, é he, que corresponde à respiração, à vida criada e preservada através da respiração (inspirar Deus). No Tarô, o arcano 5 é O Papa e representa a presença do mestre espiritual inerente ao indivíduo, o guia interno, a busca de respostas no plano filosófico e espiritual.
Assim, a conduta dos 5 R’s poderia ser apresentada sinteticamente:
? Responsabilidade – com a comunidade que o (a) cerca e também com a plena expressão de sua Essência;
? Redução – de pensamentos, sentimentos e atitudes egoístas/excludentes;
? Reutilização – de pensamentos, sentimentos e atitudes costrutivos mas “engavetados” em alguma parte do seu Ser;
? Reciclagem – de pensamentos, sentimentos e atitudes que inibem, de forma compulsiva, a manifestação da VIDA em sua vida;
? Revolução ética – vivência, no dia-a-dia, de novos padrões de conduta na sua vida pessoal, familiar, profissional e em sociedade.

Desvendando os 5 R’s - O primeiro “R” de nossa nova equação, responsabilidade, assenta-se numa profunda reflexão, capaz de nos libertar da condição de prisioneiros desse fragmento de tempo-espaço em que a humanidade permaneceu nos dois últimos milênios por ter optado pela experiência de divórcio em relação aos ritmos da natureza, priorizando o condicionamento cultural baseado na satisfação obtida no curto prazo.
Os 3 R’s subsequentes – reduzir, reutilizar, reciclar – podem nos ajudar a realizar um trabalho muito especial, de cura de antigas feridas internas. O primeiro “R” desse trio nos convida a reduzir, ao máximo, pensamentos, sentimentos e atitudes destrutivos, enraizados no medo, na culpa, na vingança, na intolerância. Evite, assim, desperdiçar sua energia vital porque nossos recursos internos também são finitos.
O segundo “R” nos convida a dar nova “utilidade” a idéias e sentimentos vitais, mas esquecidos, e de grande serventia nos tempos presentes. Por exemplo: não veja um estranho na rua como um potencial inimigo.
Quanto à reciclagem, que confere nova substância ao que aparentemente não é passível de redução ou reutilização, no nível interior ela nos oferece a oportunidade de experimentar o grande mistério da transmutação. Pede com sinceridade e te será dada uma nova roupagem...
Não é difícil compreender porque o último “R” de nossa nova equação resulta numa revolução ética; coroa todo esse processo de profundas transformações, mas não se chega à quinta etapa sem viver plenamente os desafios propostos pelos 4 R’s anteriores.
É nesse derradeiro estágio que, individualmente e como humanidade, recebemos com clareza a visão de que desde sempre estiveram preparadas as soluções para cada um dos problemas humanos. Se eles persistem ao longo de séculos, milênios, é para dar chance a todos os seres encarnados nesse sistema de fazer a caminhada rumo ao centro do próprio ser.

Instruções de luz – Já dissemos que a primeira imagem da Terra, vista da Lua, reavivou na humanidade a lembrança de um antigo compromisso firmado. Muitos textos essenciais, escritos em tempos remotos, também registram esse mesmo compromisso, a exemplo da obra-luz A Vós Confio, logo nas Instruções Preliminares, que nos oferecem a sintonia com o movimento da ecologia interna, sem o qual não há como curar as feridas da humanidade, as feridas de Gaia:
“Curvai vossa cabeça ao pó, ó habitantes da Terra! Permanecei silentes e recebei com reverência estas instruções do alto...
Ouve Sua Voz, pois é cheia de graça; aquele que obedecer estabelecerá em sua mente a Paz Profunda e levará perene crescimento à Alma que em seu corpo habita, estado após estado, nesta Terra.
Com essas instruções, portanto,
A vós confio a economia da vida
O Mestre”.
A transfiguração da matéria em luz é a meta sempre perseguida por Gaia. Neste Terceiro Milênio, Era de Aquário, cada um de nós tem a tarefa de fazer com que a força vital circule livremente, permitindo-nos assim funcionar numa oitava acima. Este novo ciclo de aprendizado traz o potencial de expressão, por toda a Terra, da integridade e virtudes originais, capazes de resgatar nossa completude também na matéria. Usar a vida com economia é a instrução básica para transpor mais essa etapa evolutiva.
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* Trata-se de uma coleta diferenciada dos resíduos sólidos domésticos, em que materiais recicláveis ou pós-consumo (papéis, vidros, plásticos, alumínio etc.) não seguem para aterros sanitários e lixões, mas são reintroduzidos no processo produtivo como matéria-prima dando origem a novos produtos, os reciclados

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