Consumo Sustentável
Madeira certificada, uma tendência mundial que só agora o brasileiro começa a ver de
perto
O selo FSC assegura, no mundo inteiro, a exploração sustentável das florestas,
retirando da extração madeireira o rótulo de vilã e conferindo à atividade um perfil
legal, socialmente benéfico e economicamente viável
Por Simone Silva Jardim, de São Paulo
Apesar de o Brasil ser o maior consumidor mundial de madeira, o maior volume do que é
extraído de nossas florestas é feito de forma irregular segundo dados do governo
federal, 80% da madeira tem corte ilegal no País (veja box).
Como se isso não bastasse, entre nós apenas 10 unidades florestais detêm o selo de
certificação concedido pelo FSC (Forest Stewaardship Council ou Conselho de Manejo
Florestal) e a maior parte do que os fabricantes produzem com essa madeira ecologicamente
correta não fica aqui, é exportado, daí a escassez de opções de compra no mercado
interno.
Selo reconhecido mundialmente - O FSC é uma organização não-governamental, fundada em
1993, no México, que atua em âmbito internacional para promover o bom manejo das
florestas. Hoje, o selo FSC é o mais reconhecido mundialmente. Os princípios e rigorosos
critérios do FSC foram escolhidos após um processo de consulta de durou dois anos e teve
a participação de ambientalistas, pesquisadores, engenheiros florestais, empresários da
indústria e comércio de produtos de origem florestal, trabalhadores, comunidades
indígenas e outros povos da floresta, e instituições certificadoras de 34 países,
inclusive o Brasil.
O processo de certificação é voluntário e conduzido por certificadoras credenciadas e,
periodicamente, as unidades florestais e produtos certificados passam por novas
auditorias.
Em 1997, a certificação de florestas pelo selo FSC começou a ser utilizada no Brasil,
reunindo, de forma paritária, representantes dos setores empresarial, ambiental e social.
Também, nesse ano, foi criado o Grupo de Trabalho Brasileiro do FSC, atualmente
secretariado pela ONG ambientalista WWF - Fundo Mundial para Natureza.
Hoje já são quase 20 milhões de hectares de florestas certificadas e perto de 10
mil produtos com selo do FSC em todo o mundo. O crescimento do FSC pode ser creditado, em
grande parte, ao fato de que ele contempla os interesses ecológicos, sociais e
econômicos. Diferentemente de outros selos, a performance florestal exigida para a
certificação é a mesma para o mundo inteiro, independentemente do tipo e tamanho da
floresta, se é nativa ou plantada, ou ainda de sua localização geográfica. Quem pode
receber o selo não é a empresa e sim a unidade florestal e o produto, explica Garo
Batmanian, doutor em Ecologia e representante do FSC no Brasil.
Assim, o plano de manejo florestal realizado para a obtenção do selo FSC contempla tanto
a preservação de áreas nativas, através de uma exploração controlada, como, também,
as atividades de reflorestamento em áreas que já estão devastadas.
Na floresta nativa só são abatidas árvores que tenham mais de 40cm de diâmetro. Já
nas florestas plantadas, em geral compostas de uma única espécie, por exemplo eucalipto,
pinus, araucária e teca, busca-se a recuperação das áreas degradadas e a proteção de
áreas de florestas naturais remanescentes que entremeiam o plantio, incluindo a
proteção à fauna local.
Outro aspecto importante do selo FSC é que a certificação exige, como pré-requisito, o
cumprimento da legislação vigente no País, inclusive a que se refere aos trabalhadores.
Além da certificação de manejo florestal, o FSC prevê, ainda, a certificação da
cadeia de custódia, modalidade que certifica o produto confeccionado com matéria-prima
proveniente de floresta certificada.
O selo, nesse caso, é uma garantia da origem e serve para orientar o consumidor
final que tem, assim, a possibilidade de optar por um produto que não degrada o meio
ambiente. Da mesma forma, o selo FSC orienta o produtor intermediário e o comerciante na
compra de um produto diferenciado, destinado a mercados mais exigentes", declara o
representante do FSC no Brasil.
Mercado potencial - No Brasil, o mercado de madeiras é muito maior que o da Europa. Só o
Estado de São Paulo consome, isoladamente, mais que o dobro da madeira tropical consumida
pela França, o principal consumidor europeu.
Em 1998, uma pesquisa de opinião encomendada ao Ibope pela Confederação Nacional da
Indústria, constatou que, entre as preocupações ambientais do brasileiro, a
devastação das florestas ocupava o primeiro lugar e 68% dos entrevistados admitiram
estar dispostos a pagar algum preço adicional na compra de produtos compatíveis com a
defesa do meio ambiente. De acordo com o Ibope, o potencial de desenvolvimento de uma
demanda para produtos certificados com critérios ambientais, especialmente no setor
florestal, seria expressiva.
A maioria dos consumidores brasileiros desconhece os produtos de madeira certificada
porque, entre nós, ainda são muito restritas as opções. Por isso estamos apoiando
iniciativas que promovam junto aos formadores de opinião - arquitetos, designers,
decoradores, fabricantes e lojistas a opção por madeiras certificadas para que o
mercado interno possa atender à potencial demanda detectada pelo Ibope e o Brasil possa,
finalmente, alinhar-se com essa tendência mundial, destaca Tasso Rezende de
Azevedo, diretor executivo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal Agrícola
(Imaflora), uma das ONGs que deu apoio institucional à Mostra Design e Natureza.
Criado em 1995, o Imaflora foi a primeira instituição certificadora do hemisfério Sul
no setor florestal e, hoje, é a principal credenciada do selo FSC no Brasil. Entre suas
atividades, está a avaliação, monitoramento e certificação de operações florestais.
Experiências práticas - Uma aliança entre três ONGs ambientalistas, Imaflora,
Amigos da Terra e Imazon, permitiu a recente formação do Grupo de Compradores de
Madeiras Certificadas, integrado por 47 empresas e representantes dos governos dos estados
do Acre e Amapá e da prefeitura de Guarujá (SP).
Nada menos que 96% da madeira hoje utilizada no Brasil é de origem ilegal. Nossas
formas de controle e fiscalização não funcionam. O consumidor, com seu poder de compra,
é que pode reverter esse quadro. Por isso estamos trabalhando com esses formadores de
opinião, pois uma vez que seus produtos alcancem escala de produção, o consumidor vai
optar por eles, inviabilizando o negócio da madeira ilegal, prevê Mauro Armelin,
coordenador do Projeto de Consumo Sustentável da ONG Amigos da Terra e do Grupo de
Compradores de Madeira Sustentável.
A empresa Gethal produz chapas de compensado de madeiras nativas da Amazônia e integra o
Grupo de Compradores. No País, é a primeira companhia de capital 100% nacional a obter o
selo FCS, certificando uma área com mais de 40 mil hectares de floresta na cidade de
Manicoré (AM).
Dois terços de toda nossa produção são exportados. No prazo de dois anos, Europa
e Estados Unidos só comprarão matéria-prima e produtos de florestas tropicais, desde
que certificados. O mercado interno vai demorar um pouco mais de tempo para absorver essa
tendência, mas também vai exigir o selo FSC, acredita Bruno Stern, da Gethal.
Outra empresa, a Butzke, fabrica bancos de jardim e uma linha exclusiva de móveis para
uma rede voltada para os públicos A e B, com 16 lojas espalhadas por cidades como São
Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Vitória e Brasília.
Só usamos madeira tropical certificada para fazer nossos produtos. Hoje, a maior
parte de nossa produção é exportada, mas acreditamos que, dentro de alguns anos, o
mercado interno vai se tornar mais atraente, diz Guido Otte, da Butzke.
Desde 1996, a Eucatex possui mais de 40 fazendas de plantação de eucalipto certificadas
pelo FSC para a produção de grande parte de seus produtos, como pisos, painéis de
madeira aglomerada, chapas de fibras, entre outros.
Contando com mais de 11 mil hectares de reservas naturais, a Eucatex recentemente foi
premiada na categoria de melhor empresa com desempenho na área ambiental por atender os
princípios do FSC. O prêmio foi concedido por um de seus maiores clientes de
home-centers dos EUA: a Home Depot.
Para saber mais:
Amigos da Terra
Fone: 11 3887-9369
Portal: www.amazonia.org.br/comprdores
Brasil faz Design
Fone: 11 5571-5005
E-mail: bfdesign@volatil.com.br
Butzke
Fone: 47 382-4000
Portal: www.butzke.com.br
Eucatex:
Fone: (11) 3049-2354
Portal: www.eucatex.com.br
Gethal
Fone: 11 246-9433
E-mail: gethal@gethalamazonas.com.br
Imaflora
Fone: 19 433-0234 ou422-6253
Portal: www.imaflora.org
Tok & Stok
Fone: 0800 160 161
Portal: www.tokstok.com.br
WWF
Fone: 61 248-2899
Portal: www.wwf.org.br
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