Cidadania Ambiental

Entrevista com Rubens Harry Born
Em busca de um novo padrão de desenvolvimento sustentável e de ética


Por Simone Silva Jardim

Entre ambientalistas do Brasil é completamente dispensável uma apresentação de Rubens Harry Born, Melhor aproveitar este espaço para registrar uma reflexão, dada por “Rubinho”, como é chamado por todos, na conversa informal que manteve com a repórtes antes do início da entrevista, “Tive o privilégio de nascer numa família comprometida com questões de justiça social. Meu pai era judeu e lembro-me que ele vivia repetindo para nós uma estória. Começava com a perseguição de um vizinho e ninguém fazia nada para defendê-lo. No dia seguinte, outro vizinho era perseguido até que aquele que só observava tudo e não fazia nada, também foi perseguido e ninguém fez nada por ele. Não posso tomar uma iniciativa só quando o problema chega na minha casa. Como cidadão, tenho que me manter alerta, sempre interessado e ativo. Essa é uma forma de viver com ética, solidariedade e responsabilidade. As pessoas são por natureza individualistas, mas não devemos viver só em função dos nossos interesses, fechando os olhos para o que está ocorrendo no mundo. As coisas são inseparáveis e há quem veja nisso a presença de Deus, Gaia ou a teoria do mundo sistêmico. Há de fato uma ligação em tudo; os processos ecológicos e sociais se interpenetram e isso é que impulsiona minha idéia de cidadania. É uma postura mais que política, é humana no sentido de perceber que existe essa unidade, essa interdependência, Ou seja, cidadania é uma questão política e e de posicionamento perante o mundo, os outros seres humanos e perante si mesmo. Para dormir tranqüilo à noite, preciso saber que tenho emprego e que estou fazendo alguma coisa para o mundo ficar melhor, sem a pretensão de fazer tudo sozinho”.
Nosso entrevistado já foi o dirigente nacional do LEAD International (http://www.lead.rg.br/abdl.htm/), programa de fortalecimento de lideranças nas áreas de meio ambiente e de desenvolvimento sustentável, que anualmente seleciona pessoas dos vários segmentos sociais – universidades, sindicatos, meios de comunicação etc. – com a finalidade de proporcionar a troca de experiências, potencializando as ações que já tocam no seu dia-a-dia. O LEAD teve início em 1991, e hoje está presente em 35 países do mundo. Atualmente, Born concentra esforços na organização não-governamental ambientalista Vitae Civilis (www.vitaecilis.org.br), da qual é um dos fundadores. A entidade é uma das mais atuantes do País e seu trabalho é respeitado por financiadores estrangeiros como Fundação Ford e GEF.

Cidadania Ambiental – Não há dúvida que, no mundo inteiro, as ONGs ambientalistas vêm dando uma contribuição muito importante para o desenvolvimento humano rumo a uma sociedade global sustentável. O Sr. tem uma visão particular sobre os papéis sociais que esses atores têm desempenhado ao longo desses últimos cinco anos, dividindo-os em cinco fases...

Rubens Harry Born - Hoje, o esforço das ONGs está voltado para a capacitação da coletividade, no sentido de se atingir, em nível global, uma sociedade sustentável para todos. Esse trabalho vem se desenvolvendo ao longo dos últimos 20 anos. Vale lembrar que o primeiro papel das ONGs, na década de 70, era o de fazer denúncias; o segundo papel histórico desempenhado por essas entidades, muitas rotuladas de “ecochatas”, surgiu com a percepção de que não bastava fazer denúncias, era preciso somar a esse comportamento a educação ambiental e a conscientização pública mais voltada para mobilizar as pessoas, engajando a sociedade nos problemas que estavam sendo denunciados. Depois surgiu um terceiro papel: além de oferecer denuncias e conscientização social, também apresentar soluções para aqueles problemas, através da promoção de estudos e pesquisas norteados por valores éticos e sócio-ambientais. Em seguida, veio a percepção de uma nova linha de ação: a interferência consistente nas políticas públicas, fazendo inclusive lobby. Hoje, além de todos esses papéis, as ONGs também começam a viabilizar projetos de sustentabilidade, como reciclagem de lixo e manejo florestal. São essas as cinco funções sociais das ONGs. Tem ONG que hoje nasce na quinta função; outras estão evoluindo de uma para outra e outras, ainda, fazem tudo ao mesmo tempo. Há que haver um setor que defenda os interesses públicos e as ONGs têm essa função de organizar cidadãos e defender os interesses públicos, sem ser governo.

CA – Por que o Estado não é um bom defensor do interesse público?

Born – Além de ter trabalhado no setor privado e militar em várias ONGs como voluntário, também fui funcionário do setor público e para mim está claro que não é o governo que vai defender o interesse público. Reconheço que há pessoas que encontram a oportunidade de fazer um trabalho em prol da cidadania a partir do aparelho do Estado. Eu acho que isso é possível, dependendo da proposta de trabalho. O Estado verdadeiramente democrático só existe na medida em que houver uma cidadania ativa e participativa. Isso é um processo de constante aperfeiçoamento e construção porque é fácil constatar que existe uma grande massa de excluídos, de pobres urbanos e rurais que não têm condições de acessar alguns instrumentos jurídicos básicos para defender os seus direitos; onde muitas vezes os órgãos do Estado atropelam direitos básicos e fundamentais, como o caso do trabalhador que acaba perdendo um dia do seu salário para poder reclamar da conta d’água porque o órgão responsável exige que ele o faça pessoalmente. Isso é uma falta absoluta de respeito aos direitos humanos. O Estado brasileiro tem muito para avançar nessa área porque a verdadeira cidadania vem dessas pequenas coisas. Mas entre nós é preciso haver um esforço concentrado em prol da cidadania porque ainda existe muita gente que suporta esse tipo de comportamento autoritário por parte do Estado. O Estado só é democrático quando a sociedade é democrática.

CA – Nessa linha de pensamento, como o Sr. vê a atual composição do Congresso Nacional – não chega a 10 o número de parlamentares eleitos realmente engajados com a questão ambiental?

Born - Esse é um sinal seguro de que a questão ambiental, da sustentabilidade, da sobrevivência no longo prazo é ainda muito marginal entre nós e não foi incorporada, de forma madura, pela sociedade brasileira. As pessoas só pensam no dia de hoje, no ganho imediato; elas precisam pensar no amanhã e no depois de amanhã, também. O sistema do lucro fácil e rápido está levando empresas que dependem dos recursos naturais a uma crise perversa. Essa é uma responsabilidade de todos. Não sei se o problema está na falta de clareza do discurso ambiental, o que poderia estar fazendo com que a população não incorpore esses novos valores. Dada a conjuntura, hoje poderíamos estar falando não só em colapsos financeiros, mas em economia em sentido sustentável, porque essa sim é capaz de gerar empregos e proteger o meio ambiente. As eleições do ano passado foram despolitizadas –não se falou das várias abordagens possíveis para enfrentar os problemas que temos na nossa nação e qual o preço que a sociedade brasileira está disposta a pagar para resolvê-los e o que não quer sacrificar. Essas questões de fundo não foram discutidas, ficamos apenas no banal. As novas ações na economia e na política têm que corresponder aqueles princípios que se configuram como pertinentes à sociedade sustentável. Para que nossa ação seja realmente transformadora, materializando essa sociedade sustentavel, nossa ação no presente tem que estar coerente com os princípios que queremos concretizar no futuro e não com os princípios que norteiam o presente e que vêm do passado. E dou um exemplo disso. Hoje se fala muito em parceria e cooperação na sociedade civil, mas as ações das ONGs ainda se dão muito na base da competição, portanto, num paradigma do passado e não no paradigma futuro da cooperação da sociedade sustentável.

CA – No mundo globalizado, parece menos difícil a construção da sociedade sustentável, aclamada por tantos ambientalistas. Mas como ficam as diferenças culturais, ou seria mais realista nos referirmos à construção de várias sociedades sustentáveis?

Born - Independentemente do processo de globalização econômica e comercial hoje em curso, preexiste uma unidade ambiental, uma certa interdependência e complementariedade já consolidada por todo o planeta. A sociedade civil também está se globalizando e é muito importante que haja intercâmbio de esforços entre as diferentes instituições e agrupamentos humanos para se tentar mudar nossa trajetória do ponto de vista do desenvolvimento sócio-econômico e ético. Uma sociedade sustentavel no planeta pressupõe várias sociedades sustentáveis. Não posso ser sustentável aqui se, em razão da minha sustentabilidade, um índio caiapó tem de perder uma parte de sua sustentabilidade, assim como esse mesmo índio não poderá desfrutar de uma sociedade sustentável se eu também não estiver em tal estado. Temos que encontrar formas que respeitem toda essa diversidade étnica, as várias culturas, as histórias diferentes. Para isso, precisamos que os vários agrupamentos humanos espalhados pelo planeta compartilhem de alguns valores e princípios básicos, respeitadas as suas diferenças culturais, que vão nortear a sociedade sustentável. Esses valores, princípios e regras de funcionamento só podem ser compactuados mediante a construção de alguns acordos globais. Seria um esforço internacional para moldar políticas locais e nacionais com a mesma base de valores e princípios comuns, tais como a pluralidade, a solidariedade, a equidade, a ética, etc., visando a feitura da sociedade sustentável e não de uma sociedade sustentável.

CA –O Fórum das ONGs, no qual o Sr. integra a coordenação, é uma experiência que visa delinear alguns desses valores e princípios comuns?

Born – Essa é uma experiência que eu considero muito interessante, porque teve início no Brasil, já tem oito anos de existência e acabou gerando iniciativas análogas em outros países. Seu objetivo é reunir sindicalistas, ambientalistas, moradores de bairros, enfim, diferentes tipos de organizações e segmentos sociais, para um mesmo espaço de discussão dos principais problemas do país e do mundo. Isso representa uma nova forma de fazer política, coisa que os partidos políticos não estão mais dando conta. Não é um trabalho fácil porque nossas ações e atitudes estão marcadas, muitas vezes, por fortes raízes no passado, mas é uma tentativa de construir alguma coisa diferente, que se possa perpetuar e se consolidar para a frente. Hoje, as ONGs formam um importante espaço público, extremamente propício para a reflexão dos desafios a serem enfrentados para que possamos construir as sociedades sustentáveis. Creio que o desafio principal dessa mecânica, é menos encontrar os pontos comuns, mas saber trabalhar e respeitar as diferenças porque isso nos leva a saber quais são os limites reais. Esse é um aspecto fundamental para a questão de cidadania. O Fórum não é uma experiência em nome de uma pseudodemocracia, cujo discurso é que todos têm direito de ser diferentes e acaba-se aceitando coisas fora dos limites, como o nazismo, o preconceito sexual e outros. Tem certos valores humanos que devem definir o limite ético do que é aceitável na diferença. Não podemos ser ingênuos e continuar ignorando esse fato.

CA –O Sr. é um dos fundadores do Vitae Civilis, Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, que tem uma linha de atuação diferente das demais ONGs ambientais.

Born – Acreditamos que para haver uma transformação de verdade, é necessária a existência de entidades muito bem constituídas e consolidadas, formando uma rede extensa de grupos da sociedade civil, conectados uns com os outros a fim de promoverem o constante intercâmbio de experiências pois só assim há ressonância. Não adianta ter uma única entidade forte no Rio, outra em SP, isso não possibilita a ressonância do Oiapoque ao Chui e assim não mudamos a configuração sócio-ambiental do País. O Vitae Civilis foi criado para ser um instrumento para o fortalecimento da vida civil. É um instituto que integra o desenvolvimento, meio ambiente e paz porque temos uma abordagem da realidade que rompe com a visão dicotômica e ultrapassada de que meio ambiente e desenvolvimento são incompatíveis. Queremos promover um outro padrão de desenvolvimento em que entra a questão do meio ambiente e da paz. Nós não fazemos campanhas contra a guerra ou questões militares porque para nós paz é um estado ou estágio onde há ausência de todo o tipo de violência e injustiça entre seres humanos e destes com o meio ambiente. Estaremos defendendo a paz promovendo um tipo de desenvolvimento que leve à justiça social e à construção de sociedades sustentáveis.

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